Edição Especial Seda

“A SEDA – Semana do Audiovisual – é um festival que propõe  o desenvolvimento do audiovisual da cidade, através da construção coletiva de uma programação intensa de debates, oficinas, mostras e apresentações artísticas.  Propondo alternativas e soluções para estimular a realização local, assim como fomentar a formação de agentes. Através de shows, exposições, apresentações cênicas, intervenções literarias e outras atividades, a SEDA busca promover também a intersetorialidade do audiovisual com outras linguagens artísticas. Em 2012 JF recebe a segunda edição da SEDA.”  (http://sedajf.wordpress.com/)

Para integrar este evento, preparamos uma edição especial, que será distribuída todas as noites na Banquinha. Isso mesmo, DISTRIBUIÇÃO GRATUITA. A edição segue o modelo das anteriores, com seis quadros (sendo que cinco são poemas e um desenho) e um conto. Porém, o tema é Cinema, então, todos os poemas aqui presentes dialogam com filmes ou com a arte de “cinemar”. O corpo da edição não contém um conto propriamente dito, mas o fragmento de um romance que serviu como argumento para um dos filmes mais importantes do cinema nacional. E aí, tá curioso pra ver? Então passe na banquinha do Seda e retire o seu exemplar. O que? Você não é de Juiz de Fora e não vai no Seda? Ah, então faça o download da edição aqui e depois imprima, dobre e espalhe por aí.

Escoliose – uma coluna

O MUNDO É MUITO CURTO PARA SER PEQUENO
SOBRE LITERATURA, DESENTENDIMENTOS E CHACAL VENDENDO ‘UM CONTO’

 por Otávio Campos

Vender literatura. Acho horrível essa denominação, mas é isso que fazemos. Tentamos fugir do mercado, mas acabamos criando outro paralelo. Fugimos sim, das grandes editoras, da confusão e imposição mercadológica, porém o ato de montar uma banquinha e oferecer um produto é criar um meio de distribuição alicerçado no capital alheio, no interesse de terceiros e no meu próprio poder de convencimento, de mostrar que a revista é boa, que os poemas são de qualidade e que, de certa forta, causarão um deslocamento na vida das pessoas.

Fomos convidados a montar um estande e vender nosso zine num evento em Leopoldina (Minas Gerais). Já tinha em mente que passaria o dia inteiro sentado em uma cadeira e venderia dez exemplares, no máximo, sem contar que iria ter de repetir inúmeras vezes o discurso de que somos uma revista independente, seguindo o modelo colaborativo de produção e distribuição, sem amarras e sem depender do paradoxal “mercado”. Sabia também que ouviria diversas coisas interessantes, desde absurdos desaforos até as palavras mais enaltecedoras que alguém pode ouvir (é sempre assim, já estou me acostumando). E lá fui eu. E, como imaginava, dessa vez não foi diferente. Porém o discurso de um comprador me despertou grande atenção (para não dizer apenas tensão).

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Escoliose – o que é e quem faz

“A escoliose é um desvio da coluna vertebral para a esquerda ou direita, resultando em um formato de “S” ou “C”. É um desvio da coluna no plano frontal acompanhado de uma rotação e de uma gibosidade (corresponde a uma látero-flexão vertebral).

A escoliose é uma deformidade vertebral de diversas origens. As escolioses de um, ou outro grupo etiológico, podem ter prognósticos muito diferentes, pela distinta progressividade e gravidade de suas curvas.”

Não, não, galera, não se assustem. Não vamos começar a trabalhar com problemas de saúde, mas Escoliose é o nome de nossa nova coluna. Toda sexta-feira, aqui nesse seu humilde blog, um texto sobre literatura, música, literatura, cinema, literatura, arte em geral, literatura, literatura, televisão, literatura, enfim, o que der na telha do colunista da vez.

E quem faz?

Os colunistas da Escoliose (carinhosamente conhecida com Esc) somos nós, os editores da revista e mais um  convidado. Começando por Otávio Campos, depois Danilo Lovisi e, na semana seguinte, Tassiana Frank. Na última sexta do mês (ou na penúltima, dependendo de quantas sextas o mês tiver) entra em cena nosso colunista convidado, possivelmente um colaborador ou alguém envolvido, de alguma forma, em nosso meio.

Bom Dia Camaradas: um panorama íntimo de Angola narrado por uma criança imersa em antigamentes

por Danilo Lovisi

O romance Bom dia camaradas (Agir, 2006), do escritor angolano Ondjaki, nos apresenta uma Angola pós-independência, através de uma história ambientada na Luanda da década de 80. Um panorama íntimo que tem como condutor um narrador infantil, adequadamente consciente e não demasiado lírico: a justa medida que apreende o leitor sensível e interessado logo nas primeiras páginas.

O termo panorama íntimo se dá pelo caráter interno e memorialístico que transpira da história, provavelmente pela forma como é apresentada: através de uma criança da classe média, construindo sua consciência política e existencial, envolta – mesmo inserida numa classe um pouco mais elevada – envolta, invariavelmente, numa realidade social densa, pitoresca, mas não por isso menos viva e aberta ao lírico.

Além disso, há elementos da própria construção narrativa que já nos colocam, queiramos ou não (no fundo, é uma escolha do leitor), dentro dessa realidade, desse fragmento ficcional. A história começa dentro da casa, na cozinha, e o garoto-narrador (sem nome) pergunta ao personagem António: “Mas camarada António, tu não preferes que o país seja assim livre?” – essa pergunta, carregada de cunho político, na voz de uma criança, dá todo – ou quase – o tom do restante do livro, pois Ondjaki consegue, de forma natural, diluir o discurso político na fala infantil e, utilizando da flexibilidade e da natural presença do lirismo na infância, mescla parte da narrativa com belíssimos momentos poéticos, amenizando, de certa forma, passagens brutais e frias, impossíveis de ignorar em se tratando daquela (e por que não da atual) realidade social de Luanda.

Acompanhando o ano letivo do garoto, a história é tecida, mesclando os afazeres escolares com os acontecimentos inerentes à realidade de Luanda. Como a ida dos estudantes à rádio local, onde supostamente apresentariam seus próprios textos, mas são impelidos à ler um certo papel datilografado, demonstrando, de forma sutil, a imposição política ainda viva naquele tempo; ou o quase fuzilamento do garoto e sua tia (que vem de Portugal para uma visita, portanto não inserida na cultura do medo fortemente instaurada em Luanda) simplesmente por não estarem – por pouco! – em posição de sentido na passagem do carro do então presidente; ou as passagens tragicômicas, sendo a melhor de todas, a descrição da cena da professora de inglês – que tinha algum problema na perna – correndo, junto aos estudantes desesperados, de um suposto grupo reacionário que estaria invadindo a escola.

Tchissola, Lelinha, Ndalu, Kiesse e Dilo. Personagens de “Bom dia camaradas”.

Tudo isso, e muito mais, construído através de um vocabulário peculiar ao leitor estrangeiro, por razão da inserção de inúmeras palavras e expressões originalmente africanas (mas detalhadamente explicadas num glossário ao final da bem cuidada edição da Agir), ali inseridas de forma talvez excessiva, mas presentes nessa quantidade por uma questão, talvez, política, relacionada à um ideário de propagação da cultura angolana/africana através da língua.

E é exatamente sobre língua e linguagem que prosseguimos, pois é interessante ressaltar que as imagens evocadas pelas palavras utilizadas e as descrições delicadamente elaboradas pelo narrador, nos remetem a uma fotografia sépia, porém tão nítida e real que parece estar em alto relevo, sendo possível quase tocar suas texturas; ou nos lembram uma gravação antiga de família, tão nostálgica e saudosa, que chega a ser capaz de nos fazer sentir o cheiro do almoço de domingo, ou de ver “a chávena à minha frente, o fumo que saía da chávena” e sentir “o cheiro do pão torrado, o cheiro da manteiga a derreter nele”,  culminando em momentos de extremo lirismo: “mas o mais bonito era ver ali em frente o abacateiro. Vocês sabiam que o abacateiro também se espreguiça?”.

O próprio Ondjaki, quando pequeno, sob o “abacateiro que se espreguiça”.

O romance, então, além de nos evocar reações várias, também promove reflexões substanciais. Sobre isso, é interessante basear na premissa de que a literatura africana por vezes se divide na literatura do mar e na literatura do deserto, sendo a primeira caracterizada pela busca do/no outro, pela ânsia do novo e do real, e a segunda, associada a reflexões mais internas, relacionadas ao eu. O que promoveria, então, a literatura proveniente do meio urbano? Talvez, uma imposição: ou conscientiza-se hibridamente (o eu, o todo e o além) ou aliena-se, seja pelo senso comum, ou pela fuga do real – ações estas extremamente compreensíveis, devido à realidade lá encontrada.

Bom dia camaradas é, portanto, um romance capaz de promover no leitor desde momentos de sincero riso, perpassando por sagazes captações de lirismo em meio ao caos, até reflexões sociológicas e políticas, sem cair no meio panfletário, por razão da justa palavra, da justa descrição, mediada por um narrador atento, objetivo, sensível e imerso em seus antigamentes, que embora já passados, são capazes de dialogar de forma simples, direta, e por ora despretensiosa – como numa conversa entre crianças e adultos – com um presente ainda carente de respostas, definições, e diálogos. Diálogos entre camaradas.

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Ndalu de Almeida, mais conhecido por Ondjaki, é um escritor angolano nascido em 1977 que vem ganhando notoriedade internacionalmente. Participou da Um Conto na edição de dezembro de 2011. Tem mais de 15 livros publicados, sendo os de maior destaque Bom Dia Camaradas, de 2001; a novela O Assobiador, de 2002; o livro de poesia Há Prendisajens com o Xão, de 2002; o infantil Ynari: A Menina das Cinco Tranças, de 2004, e Materiais para confecção de um espanador de tristezas, de 2009. Em 2010 ganhou o prêmio Jabuti, na categoria juvenil, com AvóDezanove e o Segredo do Soviético. Além das letras, tem experiência com artes plásticas, teatro e cinema.

Uma edição. Um colaborador. Um livro.

Sua universidade está de greve? Sim? Então esse é seu post! Nossos colaboradores de maio prepararam 7 motivos pra tirar você da frente do pc, e nós explicamos porquê. Abaixo você poderá ler sete indicações de livros, seguidas de um link que o direcionará para o melhor preço deste pela internet. Nada de ficar assistindo o facebook ou jogando Song Pop. Bora ler!

1. Reinaldo Ramos indica “Elza, a Garota”, de Sérgio Rodrigues. ”O livro resgata um episódio trágico na história do partido comunista brasileiro: o assassinato da garota Elza Fernandes na década de 30 após um confuso processo de justiçamento seguido do fracasso da intentona de 1935. O autor conduz uma interessante trama investigativa que mistura realidade e ficção, tendo como liame uma narrativa romanceada que se apóia sobre a figura de Molina, um jornalista quarentão em crise profissional e com uma namorada 20 anos mais jovem, às voltas com a missão de reescrever as memórias do crime a partir de uma série de entrevistas com Xerxes, um misterioso ex-militante de esquerda, não sabendo se está diante do último zelador de segredos valiosíssimos ou de apenas um velho sarcástico brincando com seu voluntarismo ingênuo. Mistura de documentário do History Channel com minissérie da HBO, “Elza, a Garota” é uma leitura para ser degustada com curiosidade histórica, mas com alguma dose despretensão literária.”

2. Prisca Agustoni está lendo e indica o ensaio biográfico de Louis Begley, “O mundo prodigioso que tenho na cabeça: Franz Kafka”. “Trata-se de uma forma interessante de entrar no universo fascinante e obscuro da obra de Kafka – um dos primeiros escritores que li com avidez e fascínio – através de trechos de cartas que cotejam fatos históricos e biográficos relativos ao autor e seu contexto. Isso permite reconstruir em parte o painel que foi a complexa vida interior desse gênio das letras de língua alemã.”

3. Paula Vasconcelos indica ”1922 – a semana que não terminou, de Marcos Augusto Gonçalves. “Uma aula de história diferente. É inquestionável as consequências desta semana até hoje e o livro nos aproxima das histórias de Mario, Lobato, Estado, Anita, Oswald, e Pirralho, com suas dificuldade, relações, conflitos. Uma narrativa crítica, que mescla jornalismo com história, e traz a tona mitos, crenças e verdades na reconstituição de cada passo deste grande evento. Com imagens das exposições, folhetos, páginas de jornal e fotografias da época, Marcos Antônio Gonçalves ilustra toda a história contada.

4. Frederico Spada indica “A recusa”, de Prisca Agustoni*. “A poesia de Prisca alia a densidade do chumbo à delicadeza da seda. É minimalista, mas não efêmera: ecoa. Inscreve fundo sua letra, sua lavra, afinal “não sai-se indene/ da obsessão alheia”. Em “A recusa”, os corpos são feitos reféns, e o desejo partilha a dissonância, cultiva o indecente silêncio “antes que as palavras/ se tornem apenas palavras”. Os olhos se deixam levar, há sombras, e a “noite se exila além das pálpebras”. A mão espalmada na capa não repele, mas oferta: “minha oferenda/ é a recusa”, escreve a autora. A recusa, aqui, é a posteriori.

5. Mayara Peixoto indica ”Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand. “É uma peça de teatro francesa, de 1897. Não sei nada técnico sobre ela; sei que ela já foi amplamente interpretada – inclusive no Brasil -, e adaptada para o cinema. É uma leitura deliciosa, fácil, boa para descansar a mente e as emoções. O enredo é simples: desencontros amorosos. Fórmula universal retratada com muito bom humor, e com a dose de drama de que muitas pessoas gostam. Os poetas – e aspirantes – vão se identificar com o protagonista, que dá nome à peça. Acho genial, ainda que simples – altamente recomendável.”

6. Cristina DeSouza está relendo e indica “A Redoma de Vidro”, de Sylvia Plath. “Poesia visceral, profunda, e a flor da pele, de uma das minhas autoras favoritas.”

7. Bruna Maria indica ”Cartas de um escritor solitário, de Sam Savage. “Sam, através da compilação da “mais trágica história de Andrew Whittaker – seus escritos coligidos, finais e absolutamente completos” narra, através de cartas do personagem principal aos seus inquilinos, amantes, mãe, ex-mulher, amigos, colaboradores literários etc, a trajetória cômico-deprimente do arrogante escritor e editor Whittaker. Através do conteúdo das cartas enviadas, vamos, pouco a pouco, concebendo a estória desse personagem que se assume a todo tempo como autor e editor da revista literária “Sabonete”, mas cuja obra completa se resume apenas às cartas corriqueiras e simplórias apresentadas no livro. As cartas apresentam Andrew, na verdade, como um escritor fracassado e levemente patético, com uma vida pessoal confusa e desinteressante, que crê em seu potencial genial e que, na posição de editor de uma revista de literatura, se vê com o poder de julgar o trabalho de iniciantes, de afetos e de desafetos. O livro tem um início enfadonho, mas, depois, atinge um ritmo interessante, com trechos risíveis – técnica de Savage para demonstrar o ridículo de Andrew Whittaker? Pode ser. Para responder a esta pergunta, deixo a indicação de leitura.”

Mixtape de Maio

A mixtape desse mês está um pouco diferente. Além de maior (9 músicas!), vocês poderão entender o porquê da escolha de certas canções, devido ao fato de que alguns colaboradores nos enviaram, involuntariamente, alguns comentários justificando suas escolhas, emotivas e interessantes. No mais, é só dar o play e curtir essa  fita beeem mista.

– A Prisca Agustoni sugeriu três músicas e explica porquê: “[É] cruel pedir apenas uma música. Terrível fazer essa escolha… Nossa! Tem um monte de músicas fundamentais para mim, ai… Agora realmente ficou difícil. Posso sugerir pelo menos 3? [Claro que pode, Prisca!]

1) “La canción del elegido”, de Silvio Rodrigues: “Silvio Rodriguez me lembra a viagem de mochileira que fiz em Cuba, rodando o país de ponta a cabeça em trem, e os muitos amigos queridos da época da faculdade com os quais nos reuniamos para tocar e cantar essas músicas. Saudades deles e das noites de trovas!

2) “Ode to my family”, dos Cranberries: “A música dos Cranberries me lembra quando fui morar sozinha, com 18 anos, numa cidade cosmopolita como Genebra (160 nacionalidades para 400 mil habitantes!), onde eu não conhecia realmente ninguém! Fui para estudar Filosofia e Letras Hispânicas, e nas primeiras semanas era eu, minhas músicas, os livros e a escuridão das noites de inverno.”

3) “Estácio, Holly Estácio”, do Luiz Melodia: “Já o Luiz Melodia, bem, eu comecei a aprender português ainda na Suíça, lendo poesia brasileira e escutando essas músicas. Em particular, adoro o LP Pérola Negra do Luiz Melodia. Adoro, adoro!

– O Fred Spada escolheu “Cais”, de Milton Nascimento & Lô Borges: “Vejo o cais como a própria poesia: ancoradouro, porto seguro, chão primeiro de quem navega a palavra, e ao mesmo ponto de partida, chão último e propulsor de quem navega a mesma palavra em direção à liberdade criativa dos sentidos.”

A Mayara Peixoto escolheu “Tô fora”, de Roberta Sá & Trio Madeira Brasil: “Na minha opinião, a letra dessa música é de um lirismo puro e simples, bem brasileiro. A melodia é muito bem trabalhada, delicada e vigorosa. Merece ser conhecida por quem gosta de samba.”

É isso! Quer ouvir as mixtapes passadas? É só visitar nossa página no 8tracks.com clicando aqui.

Juiz de Fora – História Lírica

Colaborador dessa edição, o poeta Frederico Spada, colheu cinco depoimentos de personalidades juizforanas, resultando em um documentário que abarca um panorama da cena poética de Juiz de Fora desde os anos 70 até os dias de hoje. Foram entrevistados os poetas Gilvan Procópio Ribeiro, Fernando Fiorese, Edimilson Pereira de Almeida, Prisca Agustoni (também colaboradora dessa edição) e Anderson Pires, que figurou nas páginas de nosso zine em abril, e cita nosso trabalho em sua fala, conforme você confere abaixo:

Os demais vídeos vocês podem (e devem) conferir clicando aqui, além de um vídeo extra, apenas com os poetas recitando suas poesias.

Coisa linda!