Escoliose – uma coluna #2

O SOM DO TEXTO QUE LATEJA NO SILÊNCIO

Ou sobre butecos, jukeboxes e literatura

por Danilo Lovisi

Próximo à minha casa existem três bares. Durante todo o tempo que vivi aqui (vim com 7, portanto, 13 anos) convivi “bem” com todas as consequências de se viver próximo a um bar. No meu caso, não bares, mas três butecos. E as consequências são várias: desde bêbados cativos da esquina da minha rua (minha casa é a 1, na esquina, portanto, minha porta) que me viram crescer e eu os vi (e vejo) definhar com os anos, até as brigas e festas pela madrugada. E as músicas. Ah, as músicas! Posso me dizer conhecedor de grande parte da produção musical do circuito sertanejo-brega-funk-legião-music da última década graças aos carros de som dos frequentadores e das jukeboxes cada vez mais (e mais!) altas. E é sobre uma dessas máquinas, e um desses bares (o mais novo) que começarei a falar, mas não só isso. Entrará aí o ato de ler diante, perante, durante, e constante o som trepidante e insuportável da mais nova jukebox do bar do Bené.

Você, ser humano contemporâneo, já deve ter percebido que nosso mundo está cada vez menos silencioso. Os motivos para esse comportamento podem ser – e são – vários, e não será hoje que irei discorrer sobre isso. Mas um deles, penso, pode ser por algo que o silêncio impulsiona: olhar, pensar e ouvir nós mesmos. E isso é, convenhamos, incômodo em certos momentos. Mas ainda assim não falarei sobre isso hoje. Falarei, portanto, dos momentos nos quais a literatura foi capaz de impulsionar em mim, em circunstâncias várias, esse impulso que promove o silêncio, ou o som do texto.

Final de semana passado comecei a ler meu primeiro livro de Borges, O Aleph, e ainda não terminei. Os que já o leram devem saber alguns dos motivos, que deixarei ocultos, mas acontece que, além de todas as reflexões que o texto do argentino promove – e impõe – no leitor, comecei a lê-lo ao som nada cômodo da nova jukebox do Bené. Foi difícil. Foi muito difícil. Em meio a um bombardeio de tratados filosóficos existenciais presentes nos primeiros textos do livro, minha janela trepidava e eu me irritava gradativamente. Mas eis que… Eis que quando me acalmei, e entrei naquele estado no qual não mais lemos mas ouvimos o livro, naquele momento onde conversamos com o autor, não havia mais trepidar de janela, não havia mais fugidinha, nem um tchu nem um tcha, apenas a voz de um senhor me contando uma história que, embora eu não entendesse por completo, se infiltrava num lugar novo da minha memória, e me fazia lembrar de algo que eu não sabia que sabia (aliás, penso que os melhores livros/histórias, não nos contam algo novo, mas nos fazem lembrar de algo que, no fundo, já sabíamos mas estávamos esquecidos. Talvez venha daí a tal da identificação).

Passado o momento, que deve ter durado duas ou três páginas, a janela voltou a tremer e o som, agora não do livro, entrou mais uma vez pelo meu quarto. Mas não importava: aquela voz e aquelas imagens estarão gravadas em mim por muito mais tempo que qualquer canção incômoda. E esse momento me fez lembrar que essa não foi a primeira vez que algo semelhante a isso me aconteceu.

Lembrei, então, de quando comprei Poesia Completa de Manoel de Barros, com meu primeiro e ínfimo salário. Saí do shopping no qual se encontrava a livraria e fui andando até o ponto de ônibus esperar minha condução para casa. Sentado esperando, comecei a folhear o livro e meus olhos pousaram num verso aleatório – não me lembro agora qual, e na verdade não importa, porque a sua recepção, caro leitor imaginário, pode ser diferente e isso quebraria o texto. Mas acontece que aquele verso me deslocou de uma tal maneira que o máximo que consegui fazer foi levantar os olhos (úmidos) e olhar adiante, para o maior pedaço de céu que eu conseguisse captar em meio aos prédios desordenados da cidade. Fiquei assim por alguns minutos, não sei, e quando voltei – a mim, ao ponto, ao chão – havia perdido o ônibus. Mas isso também não importava, e não é necessário repetir o motivo.

Por fim, lembrei também de quando perdi o ar lendo Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, de Clarice. Entrei de uma tal forma no fluxo de Lóri que quando saí – ou ela me empurrou – estava não apenas sem ar, mas sem chão, sem mãos: não segurava mais um livro, não lia mais um texto, eu ouvia e sentia aquele desabafo, aquela reflexão desesperadamente sincera, alta e ao mesmo tempo sussurrante, para que ninguém, e todos, ouvissem.

É errônea a interpretação de que digo tudo isso para defender o livro e a literatura como ferramentas e forças salvacionistas e que mudarão o curso da humanidade (se pensarmos, isso já aconteceu, e não é mais o momento, por hora, por década, quiçá século, para isso). Mas tenho uma leve e crescente certeza de que esses momentos e essas imagens ficarão guardados nos meus registros memorialísticos por muito mais tempo que um tchu ou um tcha. Que trarão à minha pequena mas customizável vaga de vida na Terra um pouco mais de sentido, mesmo que eu morra sem saber o porquê das coisas, e o motivo de tudo isso insistir em latejar na minha cabeça como um sino que tange no silêncio (e vice versa).

P.S.: Enquanto escrevia pensei que poderia surgir na cabeça dos meus leitores imaginários o que afinal ou ouvia enquanto redigia esse texto. Pois bem: o escrevi num café num shopping aqui da cidade. Nos fones, ouvia isso e ao fundo, que obviamente não estava em silêncio, tocava-se isso e congêneres. E ouso dizer que em alguns momentos nada disso eu ouvia, mas sim a voz de um sujeito que por ora aparece para contar certas histórias.

Anúncios

Um comentário em “Escoliose – uma coluna #2

  1. […] #2: O som do texto que lateja no silêncio, por Danilo […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s