Escoliose – uma coluna

O MUNDO É MUITO CURTO PARA SER PEQUENO
SOBRE LITERATURA, DESENTENDIMENTOS E CHACAL VENDENDO ‘UM CONTO’

 por Otávio Campos

Vender literatura. Acho horrível essa denominação, mas é isso que fazemos. Tentamos fugir do mercado, mas acabamos criando outro paralelo. Fugimos sim, das grandes editoras, da confusão e imposição mercadológica, porém o ato de montar uma banquinha e oferecer um produto é criar um meio de distribuição alicerçado no capital alheio, no interesse de terceiros e no meu próprio poder de convencimento, de mostrar que a revista é boa, que os poemas são de qualidade e que, de certa forta, causarão um deslocamento na vida das pessoas.

Fomos convidados a montar um estande e vender nosso zine num evento em Leopoldina (Minas Gerais). Já tinha em mente que passaria o dia inteiro sentado em uma cadeira e venderia dez exemplares, no máximo, sem contar que iria ter de repetir inúmeras vezes o discurso de que somos uma revista independente, seguindo o modelo colaborativo de produção e distribuição, sem amarras e sem depender do paradoxal “mercado”. Sabia também que ouviria diversas coisas interessantes, desde absurdos desaforos até as palavras mais enaltecedoras que alguém pode ouvir (é sempre assim, já estou me acostumando). E lá fui eu. E, como imaginava, dessa vez não foi diferente. Porém o discurso de um comprador me despertou grande atenção (para não dizer apenas tensão).

Seu rosto não me era estranho. Possivelmente é um frequentador desses eventos literários ou culturais em geral. Figurinha fácil, óculos de grandes aros, rosto emoldurado por uma barba característica e cabelos desgrenhados (não, não estou traçando meu auto retrato). Julgando (vergonhosamente) pela sua aparência de leitor, não temi em oferecer um exemplar e me preparei para explicar do que se tratava. O rapaz, parecendo interessado, me questionou: “Esse conto é igual ao que o Chacal faz?”. Senti-me, de certo modo, confortável, visto que era alguém que conhecia o trabalho do Chacal, o que, consequentemente, o levaria a conhecer o esquema de distribuição de poesia marginal, ou seja, sacava de literatura. Ao que respondi: “Bem, não sei. Sim, é parecido um pouco com o trabalho do Chacal. O Chacal é um tipo de inspiração. Mas o que ele vende tem um formato diferente e, se me permite falar, é mais caro que o nosso”. Podia afirmar tal colocação com propriedade, já que tive a honra de conhecer Ricardo Chacal em um evento (literário) no fim do ano passado, oportunidade essa em que trocamos nosso zines e discutimos literatura (claro). Eis que o comprador me surpreendeu: “Não, não. O do Chacal é exatamente assim. E custa apenas um real também”. “Sério? O que eu comprei do Chacal custava cinco reais. Bom, mas o dele não é divertido assim, né? O nosso custa “um conto” e chama “Um Conto”. “É, o do Chacal também. Vocês copiaram dele, né?”. Minha cara foi no chão e me deu um bolo no estômago. “Como assim? O do Chacal chama ‘Um Conto’?! Não senhor, nossa ideia é nova, e até o próprio Chacal elogiou”. “Ah, então ele deve ter copiado de vocês. Quer ver? O do Chacal você abria a folha toda e dentro tinha um conto”. O homem abriu nossa revista e constatou que funcionava da maneira que ele imaginava e disparou: “Tá vendo? Idêntico ao do Chacal. O dele sai todo mês e, como posso ver, esse daí também”. Não sabia o que pensar. Como o Chacal pôde fazer isso conosco? Não que eu pense que nosso sistema é único e incopiável, já que a própria maneira de dobrar o nosso fanzine nós “copiamos” de um outro. “Ah, senhor, deve estar havendo alguma coisa. Sim, o Chacal conhece nossa revista, gostou até, por sinal, mas não acho que ele copiaria ipsis litteris do nosso. Quando foi que o senhor viu isso?”. “Eu comprei um desses do Chacal, ele estava vendendo num evento que eu fui”. Pois é, caro leitor, não se pode mais confiar em ninguém hoje em dia. Sim, por um lado eu me sentia lisonjeado pelo Chacal ter copiado nosso formato, nosso nome etc, mas, por outro, estávamos sendo acusados de plagiadores, afinal, vendíamos um produto semelhante, com o mesmo nome, a mesma periodicidade e a mesma sacada de um monstro da literatura marginal. Não consegui mais me controlar: “Como assim o Chacal fez isso conosco?! Não acredito. Senhor, saiba que essa ideia é nossa, e o Chacal não conhecia isso até o fim do ano passado, quando nos conhecemos e apresentamos a ele nossa revista, lá em Cataguases, no Felica”. “Como ele não conhecia esse formato até o Felica? Foi justamente lá que eu comprei esse negócio dele”. É, alguma coisa estava me dizendo que havia uma confusão nas informações. “Você tem certeza que comprou isso do Chacal?”. “Bom, do Chacal em pessoa não, mas de uns caras que estavam lá com ele vendendo, lá no fundo, perto da cozinha, com um varalzinho tipo o de vocês”. Alívio! “Haha. Não, cara, éramos nós que estávamos lá. Montamos um varal no evento e vendemos nossa revista todos os dias, inclusive nesse em que o Chacal estava. Se não me engano, eu devo ter te vendido um exemplar, pois seu rosto não me é estranho”. “Nossa, é sério, cara? Bem, então me desculpe. Eu sou professor de literatura e vendo livros e estava distribuindo umas cópias da “Um Conto” pros amigos, dizendo que era do Chacal, e todos estavam adorando. Que bom que eu descobri que é de vocês, agora posso creditar as pessoas certas”. Comprou dois exemplares e foi embora, com a mesma calma que chegou.

Resumo da ópera (como sabiamente diria Wagner Lacerda): Chacal não nos plagiou, nós não plagiamos Chacal, plágio é algo muito complicado de se tratar nesse mundo em que nada é de ninguém (portanto, aquiete-se na cadeira você que já vai me julgar). Fico pensando em quantos lugares nossa humilde revista chegou sob o pseudônimo de “projeto do Chacal” e quantos pessoas se interessaram e lê-la justamente por isso. Depois disso fiquei instigado em colocar uma plaquinha na mesa dizendo “Quase uma revista do Chacal”, mas desisti, pensando que alongaria ainda mais meu discurso de vendedor, de forma que teria de explicar quem é Chacal e o motivo de ter escrito isso. Como havia dito, passei o dia sentado na cadeira, mas não vendi dez exemplares e sim cinquenta. A simples citação de um poeta consagrado na nossa banca nos fez aumentar a venda de nossa literatura. Pois é, nós vendemos literatura, e como é difícil!

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2 comentários em “Escoliose – uma coluna

  1. Francisco Marques Poeta disse:

    Creio que para vender sua própria literatura um indivíduo deva ser escritor e “vendedor” ao mesmo tempo. Acontece que, geralmente, nós escritores, somos muito introspectivos e não temos o chamado tino para venda.

  2. […] #1: O mundo é muito curto para ser pequeno, por Otávio […]

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