Bom Dia Camaradas: um panorama íntimo de Angola narrado por uma criança imersa em antigamentes

por Danilo Lovisi

O romance Bom dia camaradas (Agir, 2006), do escritor angolano Ondjaki, nos apresenta uma Angola pós-independência, através de uma história ambientada na Luanda da década de 80. Um panorama íntimo que tem como condutor um narrador infantil, adequadamente consciente e não demasiado lírico: a justa medida que apreende o leitor sensível e interessado logo nas primeiras páginas.

O termo panorama íntimo se dá pelo caráter interno e memorialístico que transpira da história, provavelmente pela forma como é apresentada: através de uma criança da classe média, construindo sua consciência política e existencial, envolta – mesmo inserida numa classe um pouco mais elevada – envolta, invariavelmente, numa realidade social densa, pitoresca, mas não por isso menos viva e aberta ao lírico.

Além disso, há elementos da própria construção narrativa que já nos colocam, queiramos ou não (no fundo, é uma escolha do leitor), dentro dessa realidade, desse fragmento ficcional. A história começa dentro da casa, na cozinha, e o garoto-narrador (sem nome) pergunta ao personagem António: “Mas camarada António, tu não preferes que o país seja assim livre?” – essa pergunta, carregada de cunho político, na voz de uma criança, dá todo – ou quase – o tom do restante do livro, pois Ondjaki consegue, de forma natural, diluir o discurso político na fala infantil e, utilizando da flexibilidade e da natural presença do lirismo na infância, mescla parte da narrativa com belíssimos momentos poéticos, amenizando, de certa forma, passagens brutais e frias, impossíveis de ignorar em se tratando daquela (e por que não da atual) realidade social de Luanda.

Acompanhando o ano letivo do garoto, a história é tecida, mesclando os afazeres escolares com os acontecimentos inerentes à realidade de Luanda. Como a ida dos estudantes à rádio local, onde supostamente apresentariam seus próprios textos, mas são impelidos à ler um certo papel datilografado, demonstrando, de forma sutil, a imposição política ainda viva naquele tempo; ou o quase fuzilamento do garoto e sua tia (que vem de Portugal para uma visita, portanto não inserida na cultura do medo fortemente instaurada em Luanda) simplesmente por não estarem – por pouco! – em posição de sentido na passagem do carro do então presidente; ou as passagens tragicômicas, sendo a melhor de todas, a descrição da cena da professora de inglês – que tinha algum problema na perna – correndo, junto aos estudantes desesperados, de um suposto grupo reacionário que estaria invadindo a escola.

Tchissola, Lelinha, Ndalu, Kiesse e Dilo. Personagens de “Bom dia camaradas”.

Tudo isso, e muito mais, construído através de um vocabulário peculiar ao leitor estrangeiro, por razão da inserção de inúmeras palavras e expressões originalmente africanas (mas detalhadamente explicadas num glossário ao final da bem cuidada edição da Agir), ali inseridas de forma talvez excessiva, mas presentes nessa quantidade por uma questão, talvez, política, relacionada à um ideário de propagação da cultura angolana/africana através da língua.

E é exatamente sobre língua e linguagem que prosseguimos, pois é interessante ressaltar que as imagens evocadas pelas palavras utilizadas e as descrições delicadamente elaboradas pelo narrador, nos remetem a uma fotografia sépia, porém tão nítida e real que parece estar em alto relevo, sendo possível quase tocar suas texturas; ou nos lembram uma gravação antiga de família, tão nostálgica e saudosa, que chega a ser capaz de nos fazer sentir o cheiro do almoço de domingo, ou de ver “a chávena à minha frente, o fumo que saía da chávena” e sentir “o cheiro do pão torrado, o cheiro da manteiga a derreter nele”,  culminando em momentos de extremo lirismo: “mas o mais bonito era ver ali em frente o abacateiro. Vocês sabiam que o abacateiro também se espreguiça?”.

O próprio Ondjaki, quando pequeno, sob o “abacateiro que se espreguiça”.

O romance, então, além de nos evocar reações várias, também promove reflexões substanciais. Sobre isso, é interessante basear na premissa de que a literatura africana por vezes se divide na literatura do mar e na literatura do deserto, sendo a primeira caracterizada pela busca do/no outro, pela ânsia do novo e do real, e a segunda, associada a reflexões mais internas, relacionadas ao eu. O que promoveria, então, a literatura proveniente do meio urbano? Talvez, uma imposição: ou conscientiza-se hibridamente (o eu, o todo e o além) ou aliena-se, seja pelo senso comum, ou pela fuga do real – ações estas extremamente compreensíveis, devido à realidade lá encontrada.

Bom dia camaradas é, portanto, um romance capaz de promover no leitor desde momentos de sincero riso, perpassando por sagazes captações de lirismo em meio ao caos, até reflexões sociológicas e políticas, sem cair no meio panfletário, por razão da justa palavra, da justa descrição, mediada por um narrador atento, objetivo, sensível e imerso em seus antigamentes, que embora já passados, são capazes de dialogar de forma simples, direta, e por ora despretensiosa – como numa conversa entre crianças e adultos – com um presente ainda carente de respostas, definições, e diálogos. Diálogos entre camaradas.

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Ndalu de Almeida, mais conhecido por Ondjaki, é um escritor angolano nascido em 1977 que vem ganhando notoriedade internacionalmente. Participou da Um Conto na edição de dezembro de 2011. Tem mais de 15 livros publicados, sendo os de maior destaque Bom Dia Camaradas, de 2001; a novela O Assobiador, de 2002; o livro de poesia Há Prendisajens com o Xão, de 2002; o infantil Ynari: A Menina das Cinco Tranças, de 2004, e Materiais para confecção de um espanador de tristezas, de 2009. Em 2010 ganhou o prêmio Jabuti, na categoria juvenil, com AvóDezanove e o Segredo do Soviético. Além das letras, tem experiência com artes plásticas, teatro e cinema.

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