Poemas de Anelise Freitas

Anelise Freitas estuda Letras na Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou os livros Vaca contemplativa em terreno baldio e O tal setembro. É uma das organizadoras do Eco Performances Poéticas e fundadora do movimento/revista/blog Os 4 Mambembes. Ultimamente tenta voltar para casa, pelo menos em versos, enquanto constrói o conceito e escreve seu terceiro livro, com título provisório de sozé.

Abaixo, 4  poemas inéditos:

o poema #01

       queimar
a matéria
que não líquida
nem sólida
……arder

zôrei
aqui não é lugar
pra ficar vai longe se
retirando daqui
amanhã bem cedo para
de chamar

(um sopro de-
forma o fogo)

antes de apagar
passar os dedos sem
queimar
a matéria da chama
que não líquida
nem sólida
zôrei

*

o poema #02

where do the dreams of babies go
’cause you know they’re all so good
and they’re also gone so fast

: começa, e eu nem tirei a blusa
a minha cabeça se enterra
e a sua bunda movendo pra frente

digo que preciso chorar enquanto
penso de pernas abertas
em como aquela canção vai terminar

e choro e você põe fora
pra gozar

*

​o agora

that hallowed be thy name
porque é difícil estar
sempre um passo atrás
do rabo, quem julga
(?), por fim, o que é sagrado

never say that name in vain
because todo mundo vai
estar atrás, e é você mesmo que diz
balançando a voz
(!): a briga não é parada

want to touch the skin
mas espera lá, vê bem:
só vale a pena quando é de verdade
mamãe te diz e eu falo grosso
(.) tom de pele não faz vigor

will hurt, baby: and anybody cares
que o rio volta na chuva
e a boca está bem perto
do rabo (;) aperta o passo, alonga
a língua e toca​

*

o babalawo

òsùmàrè
òsùmàrè
seis meses homem
seis meses mulher
òsùmàrè

na ponta do pé,
balança a serpente
òsùmàrè
òsùmàrè
búzios coloridos
òsùmàrè

seis meses homem
seis meses mulher

Yvette Centeno

Yvette Centeno (ou Y. K. Centeno) é natural de Lisboa e Professora Catedrática da Universidade Nova, onde fundou o Gabinete de Estudos de Simbologia. Publica desde os anos 60 obras de poesia, teatro, ficção e ensaio, de que se destacam os estudos relativos à obra de Fernando Pessoa, autor de que é considerada especialista. Parte da sua obra foi traduzida em França, Espanha e Alemanha. Entre os autores que traduziu contam-se Shakespeare, Goethe, Stendhal, Brecht, Celan e Fassbinder.

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EM SETEMBRO, NO ALGARVE

Deito-me no muro do quintal.
Aguardo o pôr do sol
quando os pássaros cantam
e a terra exala um cheiro quente
a caruma e a tojo.
No meio das árvores
a romãzeira florida parece descansar.
Chegou ao fim do seu dia.
Olho o sol.
E eu
quando chegarei eu?

MORANGOS SILVESTRES

Cóleos begónias avencas
aprendo o nome das plantas
e de manhã como fruta
(não era o que dizias?)
antes de tomar café.

Mas a seguir ao café
sobra-me um dia comprido.
Não sei que fazer sem ti
(não há morangos silvestres)

não sei que fazer comigo.

A ÁRVORE

Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram…
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.

O AMOR ACONTECE UMA VEZ E NÃO SE DÁ POR ELE. Ou não se tem coragem suficiente força para sofrer para fazer sofrer para sofrer mais e mais ainda e ficar depois irremediavelmente sozinha com os olhos cheios de lágrimas o peito cheio de lágrimas todo o corpo fechado sobre imagens, recordações fechadas na cabeça. Importância da Imagem. Tudo o que vive vive nos olhos e fica fechado por dentro da cabeça. E uma cabeça é uma coisa frágil. A cabeça é um mundo, mas é uma coisa tão frágil. Ao mesmo tempo fechada e sem fronteiras. Os limites do mundo (do meu mundo) são os limites da minha própria cabeça. Ainda não os conheço. Yahvé Dieu fit à l´homme ce commandement: Tu peux manger de tous les arbres du jardin. Mais de l’arbre de la onnaissance du bien et du mal tu ne mangeras pás, car, le jour où tu en mangeras, tu mourras certainement. Revelação: o conhecimento está relacionado com a morte. Du fruit de l’arbre qui est au milieu du jardin, Dieu a dit: Vous n’en mangerez pás, vous n’y toucherez pás, sous peine de mort. Mas de que morte se trata? Yahvé Dieu dit: Voilà que l’homme est devenu comme l’un de nous, pour connaître le bien et le mal! Qu’il n’etende pás maintenant la main, ne cueille aussi de l’arbre de la vie, n’en mange et ne vive pour toujours! Il bannit l’homme et il posta devant le jardin d’Eden les chérubins et la flame du glaive fulgurant pour garder le chemin de l’arbre de vie. O conhecimento está relacionado com a morte. Tudo se encontra reunido num centro e o centro é um ponto que cresce como um sol eterno sem limites. A cabeça é uma circunferência e um círculo. É difícil entrar, mas depois de se estar lá dentro continuase, continua-se, continua-se. E recomeça sempre sempre tudo. Abrem-se os momentos como frutos maduros. Ah fome Ah sede terrível fome terrível sede de frutos. Delicadamente espera-se e depois vê-se como delicadamente o fruto se desprende. Acabado redondo perfeito macio brilhante repleto fechado sobre si. Chegou-se outra vez ao fim e ao princípio. Há pessoas que têm direito somente a um fruto. A um único fruto. Outras têm direito a mais. Mas é raro poderem encontrá-los ou delicadamente poderem esperar que o fruto chegue ao fim. O fruto exige paciência amor dedos ligeiros. O fruto exige, antes de se entregar. E são raras as pessoas que delicadamente. Mas voltando ao amor, o mais estranho é que quando chegou ao fim começou a durar e apesar de acabado dura ainda, dura sempre, como se tivesse começado agora mesmo ou como se fosse ainda começar.

O ELÉCTRICO

Era o eléctrico amarelo
cheio de homens e mulheres recortados à faca dum papel
com caras de madeira
e olhos frios pintados a gouache sem pincel
Era o eléctrico amarelo da noite
por fora tinha cor
por dentro estava cheio de rostos macilentos
olhos de sono
revistas de amor
Era o eléctrico feio das viagens
a noite às costas
e o vento nas janelas
e pessoas que entravam e saiam por elas
ou ficavam sentadas
e de pé
a olhar estupidamente o espaço em frente
o espaço mais além que já não tinha gente

CAMINHO

devagar cortei-te o pulso

percorri esse caminho
dentro das tuas veias

enquanto o sangue saia
abria portas de entrada

eu avançava ao contrário
dentro de ti me perdia

o amor não era mais nada

NAS RUAS DE LISBOA

Veio avisar
Veio com rosto
de sombra:
morrerá um poeta
nas ruas de Lisboa.

Chove muito,
a chuva lavará
o seu cadáver.

Alguém dirá
o seu nome
alguém lhe fechará
os olhos
que ele desejava
abertos
sobre o mar

Cartas para K.

Um chá com Mariana Botelho

Mariana Botelho nasceu no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Em 2010 lançou seu primeiro livro de poemas, O silêncio tange o sino, pela Ateliê Editorial. Desde então, mudou-se para a capital mineira e, no fim do último ano, voltou para o interior, onde divide o tempo cuidando dos filhos, construindo esculturas de cerâmica e trabalhando em dois novos livros. Mariana também, como qualquer ser contemporâneo, tem um perfil no Facebook, e, constantemente, posta em sua página poemas da própria autoria. Os que acompanham a poeta já puderam perceber a presença constante de uma interlocutora, denominada K., para quem são destinadas pequenas cartas. Em uma conversa por Facebook, como não poderia deixar de ser, Mariana nos contou um pouco mais sobre K., nos falou sobre os planos para publicações futuras, da sua relação com o primeiro livro e, é claro, sobre a vida de poeta na rede mundial de computadores.

foto de Ricardo Aleixo

Mariana, quem é K.? 

K., é um lugar. Ela começou como uma sereia de cerâmica que eu não dei conta de terminar por conta de turbulências na vida cotidiana e uma mudança de cidade. Aconteceram muitas coisas e eu precisava de um lugar pra passar por tudo que essas mudanças, geográficas e afetivas, acarretavam. Não pra entender as coisas, mas pra passar por elas com alguma serenidade, ainda que mínima. Então eu transformei K. numa interlocutora. Em cerâmica eu quis retratar uma pessoa específica. Tentei dar a ela os traços dessa pessoa. Mas não consegui e ela saiu com a minha cara, meu nariz, a careca, como eu tinha na época.  Continuar lendo

Ana Hatherly

Ana Hatherly é uma poeta e artista plástica nascida no Porto em 1929. É uma das teorizadoras do movimento da Poesia Experimental Portuguesa, iniciado nos anos 60, em Lisboa. Começou sua carreira literária em 1958, e atualmente possui uma vasta obra poética, traduzida para diversas línguas dentro do continente europeu. Dentre seus livros, destacamos Fibrilações, que foi publicado pela primeira vez em 2004, em uma tiragem não-comercial de 100 exemplares numerados. Em 2005 a Quimera lançou uma versão comercial, em edição bilíngue, com tradução para o castelhano. Da publicação, retiramos os poemas abaixo:

O espelho partiu
a moldura ficou
Agora vemo-nos
furiosamente

*

Meu coração e eu
vivemos juntos
mas não lado a lado
e nunca nos vemos
O sangue é um acordo vivo
que nos ata

*

O desejo é uma chama
que insistentemente chama:
A tela de Penélope
surge de seus dedos mudos

*

Há palavras
que só vivem de noite
Só falam surdamente
sem lábios

*

A palavra vem
e depois vai
Em tudo sangra
o signo da ausência

*

Viaja sem qualquer bagagem:
Entre o que te salva
e o que te mata
nada substitui a aventura

—-

No vídeo abaixo, José Maria Alves lê  “O vermelho por dentro”, poema de Eros frenético (Moraes Editores, 1968) :

Um Conto 19 – Quem faz:

brunaQUADRO I: BRUNA BEBER

Bruna Beber nasceu em Duque de Caxias (RJ), em 1984. Publicou a fila sem fim dos demônios descontentes (7Letras, 2006), balés (Língua Geral, 2009) e a pequena coletânea rapapés & apupos (7Letras, 2012) e Rua da padaria (Record, 2013). Seus poemas já foram traduzidos e publicados na Alemanha, Argentina, Espanha, Estados Unidos, México e Portugal.

  …………………………………………..(Para ler o poema de Bruna Beber clique aqui)

 

laurindoQUADRO II: LAURINDO FELICIANO

Laurindo Feliciano é um artista e ilustrador nascido em Belo Horizonte, Brasil, em 1980. Ele colabora com revistas e jornais do mundo todo e já expôs seus trabalhos nos Estados Unidos e França, pais onde reside e trabalha desde 2003.

(Para ver as ilustrações de Laurindo Feliciano clique aqui e aqui. Para conferir sua fanpage no Facebook, aqui)

 

anaQUADRO III: ANA GUADALUPE

Ana Guadalupe nasceu em 1985 em Londrina (PR) e hoje mora em São Paulo (SP). Seus poemas foram publicados em antologias, revistas e projetos no Brasil, Espanha, México, Chile e Estados Unidos. Seu primeiro livro se chama Relógio de Pulso (7letras, 2011).

(Para ler o poema de Ana Guadalupe clique aqui)

 

júliaQUADRO IV: JÚLIA DE CARVALHO HANSEN

Júlia de Carvalho Hansen nasceu em São Paulo, em 1984. É autora dos livros: cantos de estima, alforria blues ou Poemas do Destino do Mar, e O túnel e o acordeom – diário fóssil encontrado após a explosão. Vive em Lisboa.

(Para ler o poema de Júlia de Carvalho Hansen clique aqui)

 

anamQUADRO V: ANA MARTINS MARQUES

Ana Martins Marques nasceu em Belo Horizonte em 1977. Publicou A vida submarina (Scriptum, 2009) e Da arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011). Com Da arte das armadilhas, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom e recebeu o Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional 2013

(Para ler o poema de Ana Martins Marques clique aqui)

 

aliceQUADRO VI: ALICE SANT’ANNA

Alice Sant’Anna nasceu em 1988, no Rio de Janeiro. Lançou Dobradura (7Letras, 2008), Pingue-Pongue (uma publicação independente em coautoria com Armando Freitas Filho, 2012) e Rabo de baleia (Cosac Naify, 2013).

(Para ler o poema de Alice Sant’Anna clique aqui)

 

 

laura

CONTO: LAURA ASSIS

Laura Assis nasceu em 1985 em Juiz de Fora, MG. É graduada em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFJF. Atualmente cursa doutorado em Literatura na PUC-Rio e é professora substituta na Faculdade de Letras da UFJF. Publicou artigos, resenhas, contos e poemas nos jornais Plástico Bolha e Tribuna de Minas, nas revistas Estação Literária e Darandina e em sites como Amálgama e Posfácio. Em 2013, ficou em primeiro lugar na categoria poesia do V Prêmio Paulo Britto de Prosa e Poesia. Seu primeiro livro, Depois de rasgar os mapas, está no prelo.

(Para ler o conto de Laura Assis clique aqui)

Um Conto 19

Finalmente saiu a nossa décima nona edição. Juntamente com isso, voltamos a trabalhar aqui nesse site (por vezes as férias chegam ao fim). Estamos preparando alguns conteúdos novos e super interessantes para nosso leitores (a.k.a. vocês). Bem, então vamos ao que interessa: que conhecer os textos e os protagonistas da Um Conto 19? Então é só clicar na imagem abaixo que iremos magicamente te direcionar para a página de leitura.

Já está.

um conto 19

Um Conto 18

um conto 18

Demorou mas saiu, enfim, nossa décima oitava edição. E vocês não esperaram à toa: temos poetas de vários estados do país, como Rio, Bahia, Pernambuco e Minas (e um desenhista brasileiro em terras italianas, mamma mia!)  sendo que há uma mescla entre autores já publicados e outros, inéditos; gente do meio literário e gente de tudo quanto é meio. O que importa, enfim, é o que eles têm pra compartilhar com a gente; o que importa é o que conseguiram fazer com a linguagem; o que importa é o que vai sobrar (ou não) disso, nos nossos dias, após a (rapidíssima) leitura dessa nova edição. Curios@s? Não? Pois deviam. Clicando aqui, ou na capa acima, vocês caem no link pra leitura online da revista. E, ó, spoiler alert: essa edição tá ótima, e vocês mal podem esperar pra próxima. Tão boa quanto. Mesmo. Nem nós estamos acreditando. Enfim: até logo e boa leitura!

fevereiro 2013

Amanda Bruno é estudante de Letras na UFMG e escreve menos do que gostaria. Já publicou poesias na Revista Carpe Diem, no Zine Amendoim e na Revista Dezfaces. Se apresentou na Casa Barkaça, em Divinópolis, e no sarau Consoante, em Belo Horizonte.

danilo augusto

Danilo Augusto de Athayde Fraga é poeta e escritor. Por seus escritos, foi premiado nacional e internacionalmente, em concursos como “O Jornalista do Futuro”, promovido pela Associação Baiana de Imprensa e, mais recentemente, no “I Concurso Universitário Latino-Americano de Literatura”. Formado pelo Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades pela UFBA, atualmente cursa Letras nesta mesma instituição.  Também contribuí, como ensaísta, com renomadas revistas literárias e culturais.

foto laura

Laura Assis é graduada em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFJF e doutoranda em Literatura na PUC-Rio. Escritora com artigos, resenhas, contos e poemas publicados nos jornais Plástico Bolha e Tribuna de Minas, nas revistas Um Conto, Estação Literária e Darandina e em sites como O Bule, Amálgama, TextoTerritório e Posfácio. Produtora editorial na Aquela Editora. Publica textos (literários ou não) no blog Página 29.

 ludmila

Ludmila Rodrigues nasceu em 21 de janeiro de 1991, em Salvador, na Bahia. Em 2009, teve a primeira experiência com o livro prensado: participou da antologia baiana Poesia & Conto para todos os cantos, tendo dez páginas de contos publicados. Depois de morar em São Paulo e no sul da Patagônia argentina (Villa La Angostura), regressou a Salvador e, em 2012, publicou seu primeiro livro, O rosto na xícara — que abrange poesia e prosa poética — cuja orelha foi escrita pela consagrada escritora e componente da Academia Baiana de Letras Gláucia Lemos, lançado em maio, participando da programação de aniversário da Biblioteca Pública da Bahia. Entre idas e vindas, teve seu trabalho publicado em diversas revistas virtuais e impressas. Já planeja a publicação de Minha cabeça já não comporta tantos antigamentes, o próximo livro — que contempla apenas o gênero poesia. Atualmente, Ludmila vive em sua cidade natal, cursa Letras Vernáculas na Universidade Federal da Bahia e é também colaboradora da Revista Escrita (PR) e das agendas anuais Livro da Tribo (SP). Mantém um blog.

vanessa carvalho

Vanessa Carvalho nasceu num bairro comum do Recife, em Pernambuco, em 1995. Desde então se mudou várias vezes e atualmente mora em Igarassu/PE. Às vezes mora no filosofia de quinta e tem um problema na vista: vê tudo poesia.

nuno mello

Nuno Melo nasceu em Belo Horizonte, mudou-se 3 vezes por cidades mineiras. É estudante de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal de Juiz de Fora e atualmente está em um intercâmbio em Padova, Itália. Seus temas de preferência e atuação em sua formação são Urbanismo e Planejamento Urbano e Regional, Participação Comunitária e Patrimônio Cultural. Amador como ilustrador, escritor e músico, mas gosta de se perder nas três formas de expressão. Publica seus desenhos na Pedradas Book.
raquel gaio
Raquel Gaio tenta performar a palavra e fazer do corpo uma escritura poética.