Ismar Tirelli Neto

ismar

Ismar Tirelli Neto é poeta e ficcionista. Nasceu a 1985, no Rio de Janeiro, e publicou os livros synchronoscopio Ramerrão, ambos pela editora 7Letras. O texto a seguir é inédito.

 

Os Piores Anos de Nossas Vidas (Aproximações)

I.

_____Por um breve período de tempo, ei-lo o homem que se debruçava sobre a amurada e via a água colear um antigo slogan revolucionário, se bem me lembro, “é preciso explorar sistematicamente o acaso”. Segue-se a este outro breve, espocado homem, homem sentado a um banco de praça, homem que em sua grande maioria vem se dedicando única e exclusivamente à tarefa um tanto árdua de voltar a si –, isto já faz quantos anos? Ora

II.

_____Nicolau é mesmo de uma indelicadeza imperdoável quando

III.

_____Ressalva, ao pé de Dagmar (ao pé de Dagmar serve-se de mais um copo de sangria, ressalva), que não acredita nem em reproduções de quadros nem em poemas traduzidos, porque “a arte é muito ciumenta, há que buscá-la em casa”. De resto, trata-se de encontro amplamente documentado, um grande acontecimento para o cinema, um grande acontecimento para o “mundo cultural”, um grande acontecimento para

_____poucos

_____anos depois

IV.

_____Ela abandona a União Soviética em definitivo – segundo artigo que traduzi ano passado, pouco depois de conhecer Daniel, isto já faz quantos anos?, pouco depois de conhecer Daniel, Dagmar abandona a União Soviética em circunstâncias “menos que idílicas”. Mesmo hoje em dia, não é incomum que se rejeite sua produção no exílio como autoindulgente

V.

_____Triste, genuinamente enraivecido porque não consegue pensar em termo mais bíblico para “autoindulgente”

VI.

_____Agora meditemos um pouco nisso. Meditemos um pouco nas recusas que não nos envaidecem

VII.

_____É preciso fazê-lo, é preciso fazê-lo sem emporcalhar a água. Reconstrói passo a passo uma velha e esboroada fantasia: dirigir-se continuamente às escusas do outro, sendo as escusas do outro aquilo que –, no outro –, trama continuamente às voltas com tentar tornar o exílio em

_____método

VIII.

_____Não é sem alguma vergonha que me pego fazendo agora essas ponderações. Ontem, ao telefone com Daniel, tive ocasião de concluir que estou fazendo tudo errado (novamente). Eis a hipótese –, a hipótese –, a hipótese –, que desencadeou todo o processo: embora não tenha feito outra coisa ao longo do verão afora minutar neste caderno de maneira mais ou menos fidedigna o pouco que lhe costuma acontecer a cada dia, é certo que não encontraria o que dizer caso alguém lhe pedisse para descrever o que de fato está se passando neste exato momento:

IX.

_____Uma parede branca à minha frente é dizer a vizinhança do outono é dizer o que se passa comigo neste exato momento com a maior frontalidade possível dirigir-se àquele outro no outro àquele outro no outro àquele outro até mesmo em Daniel aquele outro encruado no outro que precisa sempre tomar o voo das nove e meia urgentemente

X.

_____De resto, pensei que a renúncia papal acabaria por devolver à ordem do dia os insultos do espírito. Acreditei (ingenuamente, concedo) que esta seria minha segunda grande chance

XI.

_____Meus amigos, inteligentes e cínicos como médicos legistas, pendem para o cinema. Dizem: “cinema”, dizem: “há mais cinema nisto do que naquilo outro”. Certamente desejariam ouvir que me circunstanciei com a cidade novamente, à força de uns quantos passeios pela Urca ao anoitecer ou golpes de vento à boca da Cinelândia. Poderia, então, ocupar o lugar que me reservam à mesa, suspirar de cansaço diante do rocambole – afinal, ninguém tem dinheiro, – afinal, seremos nós os aventureiros? perdoarão um dia o nosso recato? – afinal, os aventureiros grassam. Contudo, falando estritamente, não me foi dado ver coisa alguma desse deserto, dessa terrível, terrível lentidão – aparecem-me sem propriamente imagem, ainda e talvez permanentemente irrepresentáveis, o que também não quer dizer muita coisa. A propósito

XII.

_____Daquela sequência de “Nostalgia” em que o Erland Josephson ateia fogo às vestes, diremos apenas que já falta pouco para o fim do verão, pode-se afrouxar. Este, como se sabe, foi um bocado pior do que o anterior – que, por sua vez, foi um verdadeiro inferno comparado ao de ’79 – que eu já julgava ter esgotado todo o cristianismo de minha outrora mansíssima natureza, que

XIII.

_____Isto vai retrocedendo, retrocedendo, até já não fazer mais sentido algum propalar por aí asneiras como este realmente não foi o nosso ano.

_____É vergonhoso, sim, vergonhoso

_____como falar de grandes vacâncias dentro de uma cabeça, vergonhoso como descobrir à base da nuca uma nova e diminuta dor que só vibra inconteste quando rimos ou engolimos um pouco de saliva,

_____vergonhoso como voltar de uma longa viagem de mãos abanando

Frank O’Hara

01

Frank O’Hara nasceu em 1926 em Baltimore, nos Estados Unidos. Estudou piano desde pequeno e, em 1946, como ex-combatente da Marinha, foi fazer um bacharelado em música em Harvard. Algum tempo depois mudou-se de modo definitivo para Nova York. “Quando nós todos”, diz O’Hara em uma entrevista, “chegamos ou emergimos como poetas em Nova York, no meio e no final dos anos 50, os pintores eram os únicos interessados em qualquer tipo de poesia experimental, ao contrário dos literatos”. Sua vida em Nova York é quase inseparável de sua relação com a pintura. Além da cidade, do concreto, o metrô – “Eu mal desfruto de uma folha verde a menos que saiba que tem um metrô por perto, ou uma loja de discos, ou qualquer outro sinal de que as pessoas não se arrependem totalmente da vida” – ele era um entusiasta da experimentação realizada pelo grupo de pintores representativo do que se tornou conhecido como Expressionismo Abstrato. O’Hara e amigos poetas, como John Ashbery, Barbara Guest, Kenneth Koch e James Schuyler, fizeram suas primeiras leituras públicas no Cedar Bar, que era o bar dos pintores, e em galerias de arte. Posteriormente ficaram conhecidos como a New York School of Poetry. Além de poesia, escreviam críticas de arte e realizavam colaborações de diversos gêneros com os artistas. Segundo a crítica americana Marjorie Perloff, noções da arte como processo e do quadro como superfície, inspiradas principalmente pela Action Paiting, influenciariam a forma da poesia de O’Hara, na qual procedimentos sintáticos e prosódicos criariam uma poesia “de muita velocidade, abertura, flexibilidade e de desafio a expectativas”.

Mas há também um importante influência da música, sobretudo de vanguarda. John Ashbery conta que em 1952 eles assistiram juntos a um concerto do pianista David Trudor tocando “Music of changes” de John Cage. Sobre a música que este apresentava, Ashbery comenta na introdução aos Collected Poems de O’Hara: “Tanto na época como hoje em dia o mecanismo do método me escapa; o que importava era que elementos do acaso pudessem se combinar para produzir um trabalho tão bonito e tão claro. Para nós foi mais uma prova, talvez uma prova definitiva, não de que ‘qualquer coisa vale’, mas de que ‘qualquer coisa pode surgir.’”

O’Hara publicou poucos livros em vida. Muitos de seus poemas sobreviveram apenas porque foram copiados em cartas ou porque foram encontrados espalhados pelas gavetas de sua casa por seus amigos. De todo modo, em 1966, ao morrer subitamente em um acidente de carro em Fire Island, já havia uma espécie de culto em torno de sua figura. O estilo de alguns de seus poemas – que o próprio O’Hara cunhara de “I do this I do that” (“Eu faço isso eu faço aquilo”) – já era copiado pelos poetas da segunda geração da New York School. São poemas de ocasião, muito alertas ao ambiente circundante, supostamente escritos de forma rápida, em momentos os mais triviais, como o intervalo do almoço – daí o título de um de seus livros, Lunch poems (1964). No entanto, como escreveu o músico Morton Feldman: “Estes poemas, tão coloquiais, tão conversacionais, ainda assim parecem nos alcançar de um algum outro lugar, infinitamente distante.” Talvez porque, como nos revela um olhar mais atento, O’Hara frequentemente intercala considerações “coloquiais” ou “cotidianas” com apontamentos mais marcadamente líricos, filosóficos ou fantasiosos. Seja como for, é uma poesia que nos lança em certo estado de atenção, e cuja leveza e movimento são, ainda hoje, capazes de surpreender.

Beatriz Bastos

 

02

Frank O’Hara traduzido por Beatriz Bastos

 

Today

Oh! kangaroos, sequins, chocolate sodas!
You really are beautiful! Pearls,
harmonicas, jujubes, aspirins! all
the stuff they’ve always talked about

still makes a poem a surprise!
These things are with us every day
even on beachheads and biers. They
do have meaning. They’re strong as rocks.
.

Hoje

Oh! cangurus, paetês, milkshakes!
Que beleza! Pérolas, gaitas
jujubas, aspirinas! todas essas
coisas sobre as quais sempre se fala

ainda fazem de um poema uma surpresa!
Estão conosco todos os dias mesmo
em casamatas e catafalcos. São coisas com
sentido. São fortes feito pedra.

*

Poem

Instant coffee with slightly sour cream
in it, a phone call to the beyond
which doesn’t seem to be coming any nearer.
“Ah, daddy, I wanna stay drunk many days”
on the poetry of a new friend
my life held precariously in the seeing
hands of others, their and my impossibilities.
Is this love, now that the first love
has finally died, where there were no impossibilities?
.

Poema

Café solúvel com um pouco de creme
azedo, um telefone para o além
que não parece se aproximar nem um pouco.
“Ah, papai, eu quero ficar vários dias bêbado”
da poesia de um novo amigo
minha vida suspensa precariamente em atentas
mãos alheias, as impossibilidades deles e minhas.
É isso o amor, agora que finalmente morreu
o primeiro amor, em que não havia impossibilidades?

*

Avenue A

We hardly ever see the moon any more
_________________________so no wonder
_____it’s so beautiful when we look up suddenly
and there it is gliding broken-faced over the bridges
brilliantly coursing, soft, and a cool wind fans
_____your hair over your forehead and your memories
_____of Red Grooms’ locomotive landscape
I want some bourbon/ you want some oranges/ I love the leather
_____jacket Norman gave me
______________________and the corduroy coat David
_____gave you, it is more mysterious than spring, the El Greco
heavens breaking open and then reassembling like lions
__________________________in a vast tragic veldt
_____that is far from our small selves and our temporally united
passions in the cathedral of Januaries

_____everything is too comprehensible
these are my delicate and caressing poems
I suppose there will be more of those others to come, as in the past
_________________________ so many!
but for now the moon is revealing itself like a pearl
________________________to my equally naked heart

.

Avenida A

Nós quase não vemos a lua hoje em dia
__________ então não é a toa que
é assim tão bonita quando de repente olhamos para cima
e lá está ela de rosto rachado deslizando sobre as pontes
como uma caçadora luzente, suave, e um vento agita
_____os cabelos na sua testa e suas lembranças
_____da paisagem com locomotiva de Red Grooms
eu quero um bourbon/ você quer laranjas/ eu adoro a jaqueta
_____de couro que o Norman me deu
_____e o casaco de veludo que o David
deu para você é mais misterioso que a primavera, os céus
de El Greco se abrem depois se recombinam feito leões
_________ em uma vasta e trágica savana
_____distante das nossas pequenas vidas e de nossas paixões
temporariamente unidas na Catedral dos janeiros

_____tudo é por demais compreensível
estes são meus poemas delicados e carinhosos
suponho que ainda virão muitos daqueles outros, como no passado
_________________ foram tantos!
por ora a lua desnuda-se como uma pérola
_______________ tão nua como o meu coração

 

Beatriz Bastos nasceu em 1979 no Rio de Janeiro. Publicou Pandora – Fósforos de Segurança, em coautoria com Fernanda Branco (Editora Azougue, 2003) e Da Ilha  (Editacuja, 2009). É professora e tradutora. Concluiu recentemente sua tese de doutorado, “Traduzindo poesia: Adília Lopes e Frank O’Hara”, na  PUC-Rio.

 

4

Frank O’Hara traduzido por Ismar Tirelli Neto

 

Autobiographia litteraria

When I was a child
I played by myself in a
corner of the schoolyard
all alone.

I hated dolls and I
hated games, animals were
not friendly and birds
flew away.

If anyone was looking
for me I hid behind a
tree and cried “I am
an orphan”.

And here I am, the
center of all beauty!
writing these poems!
Imagine!

.

Autobiographia litteraria

Quando eu era pequeno
brincava a um canto
do pátio do colégio
completamente só.

Odiava bonecas e a mim
os jogos não me apeteciam, animais
não eram simpáticos e pássaros
voavam pra longe.

Se alguém procurasse
por mim escondia-me atrás
de uma árvore e berrava “Sou
órfão”.

E cá estou eu, o
centro de toda a beleza!
escrevendo esses poemas!
Imagine!

*

My heart

I’m not going to cry all the time
nor shall I laugh all the time,
I don’t prefer one “strain” to another.
I’d have the immediacy of a bad movie,
not just a sleeper, but also the big,
overproduced first-run kind. I want to be
at least as alive as the vulgar. And if
some aficionado of my mess says “That’s
not like Frank!”, all to the good! I
don’t wear brown and grey suits all the time,
do I? No. I wear workshirts to the opera,
often. I want my feet to be bare,
I want my face to be shaven, and my heart –
you can’t plan on the heart, but
the better part of it, my poetry, is open.

.

Meu coração

Não vou chorar o tempo inteiro
tampouco rirei o tempo inteiro,
não prefiro uma “corrente” a outra.
Antes teria o imediatismo duma fita ruim,
não só as despretensiosas, mas também as super
produções de primeira linha. Quero ser
pelo menos tão vivo quanto a vulgária. E se
algum aficionado da minha bagunça disser “Isto
não parece o Frank!”, tanto melhor! Eu
não uso paletós marrons e cinzas o tempo todo,
uso? Não. Uso camiseta de operário para ir à ópera
com freqüência. Quero meus pés descalços,
quero meu rosto barbeado, e meu coração –
não se pode planejar com o coração, mas
o que nele há de melhor, minha poesia, está aberto.

*

Memorial Day 1950

Picasso made me tough and quick, and the world;
just as in a minute plane trees are knocked down
outside my window by a crew of creators.
Once he got his axe going everyone was upset
enough to fight for the last ditch and heap
of rubbish.
XXXXXXXXXXXThrough all that surgery I though
I had a lot to say, and named several things
Gertrude Stein hadn’t had time for; but then
the war was over, those things had survived
and even when you’re scared art is no dictionary.
Max Ernst told us that.
XXXXXXXXXXXXXXHow many trees and frying pans
I loved and lost! Guernica hollered look out!
but we were too busy hoping our eyes were talking
to Paul Klee. My mother and father asked me and
I told them from my tight blue pants we should
love only the stones, the sea and heroic figures.
Wasted child! I’ll club you on the shins! I
wasn’t surprised when the older people entered
my cheap hotel room and broke my guitar and my can
of blue paint.
XXXXXXXXXXAt that time all of us began to think
with our bare hands and even with blood all over
them, we knew vertical from horizontal, we never
smeared anything except to find out how it lived.
Fathers of Dada! You carried shining erector sets
in your rough bony pockets, you were generous
and they were lovely as chewing gum or flowers!
Thank you!
XXXXXXXXXXAnd those of us who thought poetry
was crap were throttled by Auden or Rimbaud
when, sent by some compulsive Juno, we tried
to play with collages and sprechstimme in their bed.
Poetry didn’t tell me not to play with toys
but alone I could never have figured out that dolls
meant death.
XXXXXXXXXXOur responsabilities did not begin
in dreams, though they began in bed. Love is first of all
a lesson in utility. I hear the sewage singing
underneath my bright white toilet seat and know
that somewhere sometime it will reach the sea:
gulls and swordfishes will find it richer than a river.
And airplanes are perfect mobiles, independent
of the breeze; crashing in flames they show us how
to be prodigal. O Boris Pasternak, it may be silly
to call to you, so tall in the Urals, but your voice
cleans our world, clearer to us than the hospital:
you sound above the factory’s ambitious gargle.
Poetry is as useful as a machine!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXLook at my room.
Guitar strings hold up pictures. I don’t need
a piano to sing, and naming things is only the intention
to make things. A locomotive is more melodious
than a cello. I dress in oil cloth and read music
by Guillaume Apollinaire’s clay candelabra. Now
my father is dead and has found out you must look things
in the belly, not in the eye. If only he had listened
to the men who made us, hollering like stuck pigs!

.

Memorial Day 1950

Picasso fez-me rápido e turrão, e o mundo;
bem como num instante plátanos são postos abaixo
do lado de fora da minha janela por uma trupe de criadores.
Quando ele começou a trabalhar o machado todos se aborreceram
o bastante para lutar pela última ravina e monte
de lixo.
XXXXXXPor toda aquela cirurgia pensei
que tinha um bocado a dizer, e nomeei diversas coisas
que Gertrude Stein não tivera tempo de nomear; mas depois
a guerra acabou, aquelas coisas tinham sobrevivido
e mesmo quando se está com medo a arte não é dicionário.
Foi Max Ernst quem nos disse.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXQuantas árvores e frigideiras
amei e perdi! Guernica gritou cuidado!
mas estávamos ocupados com a esperança de que nossos olhos
estivessem falando com Paul Klee. Meus pais perguntaram e eu
de minha apertada calça azul lhes disse que deveríamos
amar apenas as pedras, o mar e as figuras heróicas.
Criança transviada! Vou dar nas tuas tíbias! Não
me surpreendi quando os mais velhos adentraram
meu quarto de hotel barato e quebraram meu violão e minha lata
de tinta azul.
XXXXXXXXXXNaquela época todos nós começamos a pensar
com as próprias mãos e mesmo com elas manchadas
de sangue, distinguíamos entre horizontal e vertical, nunca
sujamos nada a não ser para descobrir como vivia.
Pais do Dada! Vocês carregaram brilhantes jogos de montar
em seus bolsos puídos e ossudos, vocês foram generosos
e eles eram tão adoráveis quanto chiclete ou flores!
Grato!
XXXXXXE aqueles dentre nós que achavam a poesia
uma merda foram sufocados por Auden ou Rimbaud
quando, a mando de alguma Juno compulsiva, tentamos
brincar de colagem e canto falado em suas camas.
A poesia nunca me mandou evitar os brinquedos
mas sozinho eu jamais teria descoberto que bonecas
significam a morte.
XXXXXXXXXXXNossas responsabilidades não principiaram
em sonho, embora principiassem na cama. O amor é acima de tudo
uma lição de utilidade. Ouço a canção do esgoto
por debaixo do assento brilhoso e branco de minha privada e sei
que em algum momento em alguma parte ele encontra o mar:
gaivotas e peixes-espada o pensarão mais rico que um rio.
E aviões são móbiles perfeitos, independentes
da brisa; quando caem em chamas nos ensinam
a prodigalidade. Oh Boris Pasternak, pode parecer tonto
chamar-te, tão alto nos Urais, mas tua voz
limpa o nosso mundo, mais límpida para nós que o hospital:
soas por sobre o ambicioso gargarejo da fábrica.
A poesia é tão útil quanto uma máquina!
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXVeja meu quarto.
Cordas de violão seguram retratos. Não preciso
de um piano para cantar, e nomear as coisas não passa
da intenção de fazê-las. Uma locomotiva é mais melodiosa
que um violoncelo. Trajo-me em panos d´óleo e leio música
sob o barrento candelabro de Guillaume Apollinaire. Agora
meu pai é morto e descobriu que não se deve olhar as coisas
nos olhos, e sim na barriga. Se ao menos tivesse atentado
aos homens que nos fizeram, berrando como porcos emperrados!

 

Ismar Tirelli Neto é poeta e ficcionista. Nasceu a 1985, no Rio de Janeiro, e publicou os livros synchronoscopioRamerrão, ambos pela editora 7Letras.

03

 

Frank O’Hara lê “The Day Lady Died” e “Song”

 

Gravado em 5 de Março de 1965, no apartamento do poeta em Nova Iorque, o vídeo abaixo traz O’Hara lendo dois poemas do livro Lunch poems, “The Day Lady Died” e “Song”, transcritos a seguir.

 

The Day Lady Died

It is 12:20 in New York a Friday
three days after Bastille day, yes
it is 1959 and I go get a shoeshine
because I will get off the 4:19 in Easthampton
at 7:15 and then go straight to dinner
and I don’t know the people who will feed me

I walk up the muggy street beginning to sun
and have a hamburger and a malted and buy
an ugly NEW WORLD WRITING to see what the poets
in Ghana are doing these days
_____________________I go on to the bank
and Miss Stillwagon (first name Linda I once heard)
doesn’t even look up my balance for once in her life
and in the GOLDEN GRIFFIN I get a little Verlaine
for Patsy with drawings by Bonnard although I do
think of Hesiod, trans. Richmond Lattimore or
Brendan Behan’s new play or Le Balcon or Les Nègres
of Genet, but I don’t, I stick with Verlaine
after practically going to sleep with quandariness

and for Mike I just stroll into the PARK LANE
Liquor Store and ask for a bottle of Strega and
then I go back where I came from to 6th Avenue
and the tobacconist in the Ziegfeld Theatre and
casually ask for a carton of Gauloises and a carton
of Picayunes, and a NEW YORK POST with her face on it

and I am sweating a lot by now and thinking of
leaning on the john door in the 5 SPOT
while she whispered a song along the keyboard
to Mal Waldron and everyone and I stopped breathing

*

Song

Is it dirty
does it look dirty
that’s what you think of in the city

does it just seem dirty
that’s what you think of in the city
you don’t refuse to breathe do you

someone comes along with a very bad character
he seems attractive. is he really. yes. very
he’s attractive as his character is bad. is it. yes

that’s what you think of in the city
run your finger along your no-moss mind
that’s not a thought that’s soot

and you take a lot of dirt off someone
is the character less bad. no. it improves constantly
you don’t refuse to breathe do you

 

As leituras acima fazem parte do vigésimo episódio da série USA: Poetry (1966), dedicado a Frank O’Hara, disponível aqui.

.

.

Poemas inéditos de Prisca Agustoni

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Fotografia de Lara Toledo

Prisca Agustoni nasceu em Lugano (Suíça italiana) em 1975, e viveu vários anos em Genebra. Mora no Brasil, em Juiz de Fora, desde 2002. Transita entre vários idiomas, traduzindo textos literários e produzindo seus próprios textos em italiano, português e francês. Publicou livros na Suíça, em Portugal, na Itália e no Brasil. Sua mais recente publicação é Poesia scelta (2000-2012), editada em Bolonha (Itália) pela Editora Ladolfi. Os poemas a seguir fazem parte do livro Casa dos ossos, que sairá no próximo ano pela Sans Chapeau.

1.

essa escrita que diz e preenche
o vazio das noites em que muitas estrelas
e diversas línguas não traduzem
o que importa o que realmente importa
para que o estômago não arda mais
e coisas e novas palavras encontrem
em seu ossário razão e paz

.

2.

sou cinderela que quebra
o pacto mas quando quer voltar
enfim descalça
o cetro encantado cega
e entrelaça as sendas, assim
eu paro perdida abro os olhos
no meio do caminho da vida

.

3.

dentro da noite,
pouco antes do presságio,
abrir a porta
definitiva
da floração corporal:

despidos de nós
celebramos por horas
nossa túmida tragédia

.

4.

: quebrou-se o feitiço
como varinha mágica
que gira no ar sem rumo,
rompida a cortiça do sorriso:
o amor um laço que aperta
e asfixia algo que não
se sabe o que é

.

5.

a casa hospeda sombras
atrás das varandas
onde plantas e flores descobrem
cruéis brotos de candor,
enquanto no porão
sílabas de vidro
sugam a luz que virá:

tantas e tantas portas
e nenhuma chave

.

Laura Assis

laura

Laura Assis nasceu em 1985 em Juiz de Fora, MG. É graduada em Letras e mestre em Estudos Literários pela UFJF. Atualmente cursa doutorado em Literatura na PUC-Rio. Os poemas a seguir fazem parte de seu primeiro livro, Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014).

.
Manual

Primeiro: cortar
no meio o verso,
equilibrar
espelho
e regência.

Depois planejar
espaço e ação:
tramar o risco
(talvez não
caiba
essência).

Mas antes rasgar os mapas.
Ritmo pede
mais que ar:
asa.

Signo quer
o universo
ou nada

Tomar da carne verbo.
A vida é no imperativo
e o amor, meu bem,
não é só uma palavra.

.

Desencontro

Você deve estar agora
andando por Copacabana,
chorando no chão da sala
ou desistindo de um livro chato.

Quisera eu estar agora
Inteira sob teus quadris.
E estou – enquanto febres
atravessam-me enorme
e deslizo entre dedos
mercúrio, memória
e a tua boca,
a tua boca.

.

Oberkampf

Nossos pais morreram
no mesmo acidente estúpido:
vimos o sangue,
vimos os corpos.
E você me fez prometer
que jamais
te deixaria

Morávamos
no mesmo
prédio,
no mesmo
andar.
Sua porta era colada
à minha porta e
entrar no seu quarto
e no meu quarto
era igual
mas ao contrário.

O metrô passava a cada
três ou quatro
minutos
a estação era a cozinha
da sua casa,
parecia Oberkampf
mas com menos
azulejos amarelos.

Sua voz ainda era
uma força da natureza
que me alcançava
na sinestesia
dos sonhos.

E dos sonhos
acordei
e nunca mais
escrevi sobre cadernos
folhas
em branco
desertos
palavras escondidas
atrás de
palavras escondidas

Então as coisas passaram
a ser como antes eram:
as coisas
e só as coisas:

pouco importa a ênfase
pouco importa a verdade

o que importa é a vida
(e a vida
não cabe).

.

Adeus

I
nós dois e um mesmo salto
décimo quarto andar
não pensar em motivos
enquanto caímos
você explica
em linhas gerais
porque prefere a natureza
à cultura
e discordamos duas vezes
antes do último impacto

II
quando voltei à casa
aquela noite
todos estavam mortos
por isso não me viram entrar
eu soube
eu vi
e era estranho saber
ainda
existir e saber
que ali algo acontecera
sem mim
como aconteciam os astros
como aconteciam os dias
as reações químicas
e tudo que vem depois da luz
e da força
das escolhas

III
eu que hoje esvazio
maços de cigarro que não me pertencem
a paciência de amigos em outros continentes
descobri que o mundo
continuava correndo sem mim
se eu desse aquele salto
astros cigarros noites poemas
o reflexo dos faróis nos vidros dos prédios comerciais
nomes estranhos grafados em viadutos abandonados
estradas mais escuras que a noite anterior
tudo continuaria no mesmo lugar
talvez eu apenas me tornasse
uma inicial desbotada no ombro esquerdo
de alguém que um dia eu deixei para trás
que se gastaria
como tudo se gasta
que se apagaria
como tudo se apaga
mas que antes de esmaecer e virar
nada
seria âncora
sumário
e ponto final.

*

No vídeo abaixo, o poema “Desencontro” na voz de Anelise Freitas.

A leitura entre destroços

Coleção de ruínas, de Frederico Spada Silva, é uma obra que se sustenta

Otávio Campos

nbhiw

Holland House Library after an air raid, 1940. (Fotógrafo desconhecido)

Em uma das poucas críticas de Distância que veio ao público, Tiago Rattes compara, talvez ingenuamente, meu livro a uma estante de referências – me lembro da fotografia de um disco na publicação impressa, por isso, não sei, acho que ele escreveu qualquer coisa sobre os poemas como canções. A imagem da estante, entretanto, me ficou de alguma forma, a ponto de não abandoná-la mais ao ler poesia: e não seria esse livro, como qualquer outro livro, uma estante de referências? Sim, todos são. Alguns tentam esconder a ideia, não sei se de forma consciente, outros exploram essa fratura ao limite, como T. S. Eliot, por exemplo, em “The Waste Land” – um poema quase fechado ao público. Existe, contudo, um terceiro grupo, se assim posso chamar, que transita entre lá e cá: um poema que se esconde entre estantes, mas de bibliotecas públicas, abertas, arejadas e levemente movimentadas. Ultimamente, tenho me deparado com milhares de livros que se encaixam na terceira vertente, a maioria deles, obviamente, não consegue se sustentar e cai nos clichês habituais. Outros enganam, mostram o clichê, e exploram o clichê ao revés do senso comum, em uma atitude quase kitsch, mas o kitsch abduzido pelo silêncio e a sobriedade da biblioteca.

Coleção de ruínas, de Frederico Spada Silva, é um desses livros que conseguem se sustentar. A biblioteca, aqui, está fragmentada, tomada,­ destruída, como na fotografia “Holland House Library after an air raid, 1940”, que compunha a capa de sua primeira impressão, uma edição hors commerce, em 30 exemplares numerados, que foram distribuídos dentro de um pequeno circuito no meio desse ano. Nas ruínas das estantes de livros folheia-se o esquecimento “entre dois muros / de meio-couro”, em nove poemas, a maioria destes diminutos. O sintetismo do poeta, como se percebe no poema de abertura, “Arquivo” (Colecionava miudezas, / pequeno e íntimo / museu de fragmentos / coletados ao acaso – / como a própria vida.), é marcado desde seu primeiro livro, Arqueologias do olhar (Funalfa, 2011), mas, enquanto lá há uma certa preocupação com os “desmazelos da palavra”, no limite Manoel de Barros da poesia, a Coleção de ruínas acerta no minimalismo cru, quase simetricamente construído, apesar dos versos livres.

Da biblioteca destruída recolhem-se cacos de referências, como as seis fotografias que compõe a seção “Geografia do abandono”. Em uma rápida busca ao Google com o título dos poemas, encontram-se os referidos locais: um teatro, um palácio, uma casa, um farol, abandonados, tomados, destruídos, como as ruínas da biblioteca. Não se perde na leitura dos poemas sem o conhecimento das fotografias, são experiências distintas; mas um olhar atento à imagem antes ou depois expande, explode, extrapola a imagem do poema, propiciando com tamanha exatidão o dito “salto mortal” da leitura de poesia, de acordo com Octavio Paz. Abaixo, um exemplo desta leitura:

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Um convite a atravessar as ruínas da língua, em poemas que, antes de pretenderem-se agir diretamente sobre o real, ser descrição de lugares marcados na fotografia, ganham mais como exercício do símbolo. Na epígrafe, como uma chave, denuncia-se o caminho: “Atravessar a língua, / esta grande fratura / exige silêncio e mapas”[i]. Como se percebe, a leitura silenciosa é a que mais colabora para a fruição do livro. Uma leitura entre destroços. Coleção de ruínas, sem dúvidas, é um trabalho que consegue se equilibrar entre os clichês de bibliotecas, lugares marcados, minimalismos forçados. Não se procura mais a calma, como Frederico parecia fazer no primeiro livro, mas incita-se a desordem, através de fragmentos que buscam a construção de uma voz (“(…) magna mater / de todas as palavras”) nunca encontrada.

A plaquette está sendo agora reeditada pelas Edições Macondo, e é o segundo volume da coleção Cadernos de ausências (nunca houve junção de títulos mais adequada). No corpo do texto utilizou-se uma tipografia próxima à da primeira edição, imitando uma máquina de escrever antiga – o que auxilia ainda mais a experiência de leitura.

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Apesar de já circular por um tempo no meio digital, espera-se que, com essa reedição, a obra consiga agora encontrar outros públicos, sem o perigo de cair no esquecimento prematuro (uma biblioteca abandonada) que tanto afeta as últimas publicações em poesia.

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[i] A epígrafe é do próprio autor, publicada sob o título “Tradução” em: http://www.germinaliteratura.com.br/2012/frederico_spada_silva.htm

Um baião de muitas mãos

Laura Assis entrevista Fabrícia Valle

A Um Conto continua com sua série de poeta-entrevista-poeta. Neste número a produtora editorial Laura Assis, autora de Depois de rasgar os mapas, conversa com a poeta e musicista Fabrícia Valle por conta do recente lançamento de Baião de Uma (Aquela Editora, 2014). O ritmo do poema e o ritmo musical possuem uma íntima relação, tanto pelo “salto mortal” necessário para se entrar no reindo de ambos, de acordo com Octavio Paz, quanto na constituição primeira e característica da célula ritimica, que impede uma desassociação entre música e poesia. Nesta conversa, Fabrícia toca em questões semelhantes, além de discorrer sobre uma suposta cena poética atual, o processo de produção do seu livro e, é claro, sobre a importância do livro físico nos dias de hoje.

Fotografia de Felipe Saleme

Fabrícia, apesar de você ser graduada, especialista e mestre em Letras, muita gente te conhece como musicista. Você se considera poeta desde sempre? Sempre escreveu poesia? E no seu trabalho de criação, as duas linguagens – música e literatura – se comunicam de alguma maneira?

Tenho muito orgulho de ter me formado academicamente em Letras, sobretudo, por durante o período na Faculdade de Letras da UFJF, ter bebido da literatura e suas possibilidades de diálogo com linguagens artísticas diversas e plurais, como a dança, artes plásticas e a música, por exemplo. Entretanto, nosso processo de formação se dá por outras vias também, que não somente as institucionalizadas, como numa roda de conversa, oficinas de formação e afins. Ou seja, de maneiras de racionalização e sistematização por muitas vezes não tão lineares quanto a uma graduação. E, enquanto musicista popular, minha formação veio acontecendo assim, de maneira prática até me ocorrer o desejo de cursar Percussão Popular na Bituca – Universidade da Música Popular de Barbacena, Grupo Ponto de Partida. Lá pude ter contato com a dimensão profissional do tocar, da vida artística e me trouxe experiência nesse sentido. Mas entre esses percursos existia o desejo e a curiosidade de pesquisa e uma vontade de fazer algo diferente de “se dar bem na vida”. E, nesse sentido, se pensarmos na dimensão performática e contra-ideológica dessa escolha, acho que posso me considerar “sempre” poeta (no sentido romântico do termo), uma vez que, poesia é vida e seus modos de estar e operar com ela. Escrevo desde minha adolescência e jamais pensava em publicar até te mostrar os textos. A poesia sempre fez parte da minha vida,dos livros aos encontros com amigos, assim como a música. Agora, do ponto de vista do diálogo entre as duas linguagens, arriscaria dizer que fundi-las não é uma busca da escrita que se estabelece a partir de mim… isso acaba acontecendo… e é tudo literatura, só não vale qualquer coisa!

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Um Conto | Edição 20

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carta encontrada num sebo de estrada. se é que existem, os sebos de estrada.

prefiro observá-los, daqui, ao invés de ler o que escrevem: há tanto poema na nesga de sol que toca os óculos daquele homem, no rodar o anel daquela, nos sete degraus que seguram o chão dos pés d’um outro ali. daqui detrás das estantes desse sebo – e do alto das minhas olheiras, faço silêncio: foram tantos os que partiram esse mês. não é abril, nem fevereiro, muito menos agosto o mais cruel dos meses, como ouço falarem: é que acontece, às vezes, partir. eu mesmo, toda noite, parto. mas antes observo Ernesto no seu jardim de sombras. elas giram, em círculos, as sombras. daqui jogo pedras que somem na queda, silenciosamente. não rebatem na grama, no rio ou no chão: do momento onde não mais me pertencem, são breu. não percebo e não quero perceber os limites entre meu corpo e a pedra, que, de propósito, deixo cair (e não ouço, nunca, o baque). não leio, como disse, nem escrevo: porém anoto o que mais escuto e vejo. ter vem sendo uma palavra muito maior do que ser. e ser, sem repetições diárias, tem sido difícil. quando imagino que dos meus sapatos reverberam círculos feito pedra caída no lago (sem baque), tento respirar o máximo que posso antes que o ar termine quando o círculo imaginário tocar os limites da cidade, do país e dessa pedra flutuante que chamamos terra. feito Lino, o peixe de Patrícia, treinando respiração dentro d’água, eu vivo. no limite do verbo e o que dele, no fim, sobra, procuro a presença. mesmo que sintética, apertada como um torniquete úmido de sangue; mesmo que resumida, assisto. assisto a esse filme procurando por ela, a vida, ou por uma nesga, um baque surdo. daqui não escrevo, não leio. daqui recuo. e observo o que escrevem (principalmente quando não o fazem).

Danilo Lovisi

Paris, 20 de Agosto de 2014

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Participaram da Um Conto – Revista de Literatura, n.20, Agosto de 2014, Danilo Lovisi, Laura Assis e Otávio Campos, no Conselho Editorial. Com poemas de Ernesto von Artixzffski, Bruna Werneck, Luca Argel, Patrícia Lino e Paulo Henriques Britto. Conto de Daniela Lima e ilustrações de Marianna Arcuri. As fotografias, na versão digital, são de Ana Clara Nunes Roberti. A revisão e arte final (versão física) são de Anelise Freitas.

Para ler a versão digital da revista, clique na imagem da capa abaixo. Para baixar o arquivo em .pdf, clique aqui.

A versão física será distribuída em breve e atualizaremos com o endereço dos locais onde estará disponível.

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